Escrever sem café não é fácil. Fui comprar um filtro do pó mágico no supermercado e vi que tinha uma opção “ecológica”, de coloração parda, ao invés do branco tradicional. A modernidade tem uma obsessão pelo branco desde que Semmelweis descobriu a higiene hospitalar. De fato, eu não preciso de um filtro branco, apenas um limpo, posso pegar o produto “ecológico” sem qualquer efeito colateral. Exceto o preço. Não é nada monstruoso, é claro, um real a mais pelo meio ambiente, por que não? Afinal, se o mundo for “pras cucuia” em meio a terremotos, furacões e chuvas de meteoro, pelo menos vou estar com a consciência tranquila.

Mas o problema da consciência é que ela pensa. Aí pensei “mas por que os eco-filtros são mais caros?”. De forma genérica, a resposta vem fácil: “porque o capitalismo suga os recursos da terra sem medir o custo real das coisas, a longo prazo e em termos globais; sendo assim, uma produção sustentável supõe um custo maior dos produtos”. Tá certo, faz sentido.

Mas será que este é um princípio absoluto da natureza, uma irrevogável lei da economia? Será que isto se aplica a todos os casos? Melhor dizendo, e o filtro de café?

Antigamente, o papel era pardo. Não por ser velho (afinal, naquela época o papel de antigamente era novo) mas por não passar pelo tratamento químico com cloro. O cloro é usado para clarear coisas como papel e açúcar, mas é extremamente prejudicial ao meio ambiente devido à sua toxidade. Na sua lavanderia deve ter cloro, utilizado para deixar as roupas brancas.

Enfim, o fato é que o papel ecológico e o açúcar orgânico são mais escuros que os convencionais devido à ausência de tratamento com cloro. Pois bem, o que isto tem a ver? No caso do açúcar talvez pouco, mas no caso do filtro de café, a contradição é evidente. Estou pagando mais por um produto que tem um processo a menos na sua produção.

Ou seja, embora o filtro de café “ecológico” seja mais caro na prateleira do meu supermercado, ele deve ser mais barato em termos de custo. O que isto quer dizer? Como diz a propaganda, “imagem é tudo”.

Hoje o preço das coisas, sabem bem os economistas, não tem tanto a ver com seu custo, mas com seu lugar no imaginário das pessoas. Para alguns isto pode parecer bonito, para outros pode ser um mecanismo de controle dos poderosos.

Eu só posso dizer que há um pacote de filtros brancos em meu armário, um post novo neste blog e algumas perguntas na cabeça.

  • Alexandre Miranda

    Rodrigo, leio seu blog sempre que lembro de buscar o link no meu email. Às vezes sinto até uma vontadezinha de comentar uma coisa ou outra, mas me rendo à preguiça! Confesso que já me peguei pensando várias vezes sobre os preços de produtos ecologicamente corretos e geralmente, têm sido em vão! Muitos produtos são mais caros somente por ostentar um “Eco”, “Verde” ou qualquer palavra assim. Mas agora, querer que um produto seja mais barato só porque tem um processo a menos na sua fabricação não faz sentido. Seguindo essa lógica, carpaccio, Sashimi e outras comidinhas cruas seriam as mais baratas do mundo!

  • http://digao.bio.br Rodrigo Travitzki

    Alexandre, você tem razão, não basta ter um processo a menos para ser
    mais barato. Por isso eu não incluí o açúcar orgânico na discussão,
    estou falando aqui dos filtros de café pardos. Segundo os usineiros, o
    açucar orgânico é mais caro por que eles fazem manejo manual de ervas
    daninhas (isso é o que eles dizem). Isso seria uma etapa a mais, com
    custo maior do que a etapa que tinha sido retirada (clorificação). Neste
    caso faria sentido aumentar o preço.
    Cada produto tem sua peculiaridade, não adianta discutir no geral (o
    título do post é mais uma provocação do que uma tese). O sashimi, por
    exemplo, embora tenha uma etapa a menos (cozinhar), tem outras etapas a
    mais (limpeza, corte específico, preparação do prato, etc). Além do
    imaginário, é claro, pois é “coisa chique”. A questão é: acontece a
    mesma coisa em relação aos filtros de café, ou não? A gente paga mais
    porque têm custo maior, ou porque os empresários perceberam que hoje se
    troca “seis aves marias e dez pai nossos” por uma taxinha extra no preço
    das coisas, em nome do meio ambiente ou das crianças desnutridas da
    África? Ou é porque produtos ecológicos viraram “coisa chique”, como o
    sashimi?

  • http://www.antesqueeuexploda.blogspot.com Andréia

    ja faz um tempo q estou c esse questionamento na minha cabeça. Antes de salvar o planeta que tal explorar ele mais um pouco, não é?

  • Rodrigo Travitzki

    Salvar o planeta?

  • Luiz Viola

    Porque é mais caro? Porque (diz ele, o fabricante) ”parte da receita com as vendas é revertida ao Instituto Ecoar”. Adivinhou qual a parte é revertida?

  • http://digao.bio.br Rodrigo Travitzki

    É uma hipótese… mas depende, na minha opinião, de quanto é essa parte. Nunca vi nenhuma embalagem dizer o quanto vai realmente pra instituições “do bem”, o que é um forte indício de que seja mais marketing do que preocupação com o ambiente ou com a inteligência do consumidor.
    Lembra um pouco uma mensagem que vi, se não me engano, numa fanta laranja ou similar: “contém suco de laranja”…
    As palavras são ótimos instrumentos para enganar sem precisar mentir.. ;)